Há uma diferença grande entre o número que cabe num título e o número que decide política monetária. O IPCA de junho, divulgado pelo IBGE na semana passada, é um bom caso para entender isso. O índice mensal veio em 0,38% — abaixo do esperado pelo mercado na pesquisa Focus, que rondava os 0,45%. O acumulado em doze meses caiu para 4,62%, devolvendo à inflação um ar de normalidade depois de meses apertados.
Até aí, tudo bem. O problema começa quando se abre o índice por grupo.
Alimentos e serviços não deixam o palco
A contribuição de cada grupo para o índice mensal conta uma história mais teimosa. Alimentos e bebidas, que pesam cerca de um quarto do orçamento das famílias, subiram 0,71% no mês — acima da média geral. O subgroupo dos alimentos em domicílio foi ainda mais forte, com destaque para produtos in natura cuja oferta segue apertada. Não é um choque isolado; é o oitavo mês seguido de pressão relevante nesse grupo.
Serviços, por sua vez, subiram 0,55%. Dentro dele, o item mais sensível ao ciclo de política — serviços regulados e livres de choques administrativos — segue acelerando. Isso importa porque é justamente o componente que o Banco Central mais observa para decidir se a inflação está, de fato, cedendo. Como escrevemos na nossa análise do último comunicado do Copom, a taxa cheia pode estar no alvo, mas os componentes "mais pegajosos" ainda não colaboram.
A inflação do agregado baixou. A inflação da cesta de serviços, não. E é ela que dita o próximo passo da Selic.
Uma tabela para não se perder
Para tornar a leitura menos abstrata, montei abaixo a variação mensal e a contribuição de cada grupo em junho. Os dados são do release do IBGE; a coluna de contribuição é o quanto cada grupo empurrou o índice cheio para cima.
| Grupo | Variação no mês | Peso aproximado | Contribuição |
|---|---|---|---|
| Alimentos e bebidas | +0,71% | 23,9% | +0,17 p.p. |
| Saúde e cuidados pessoais | +0,42% | 13,2% | +0,06 p.p. |
| Serviços (componente) | +0,55% | — | +0,12 p.p. |
| Transportes | −0,10% | 18,4% | −0,02 p.p. |
| Educação | +0,03% | 5,7% | 0,00 p.p. |
| IPCA geral | +0,38% | 100% | +0,38 p.p. |
Fonte: IBGE, Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor. Pesos e contribuições arredondados para fins de leitura.
E daí?
A pergunta prática é se essa leitura muda algo. Em termos de meta de inflação, não muito: o acumulado em 12 meses está dentro da banda de tolerância e a tendência segue de queda para os próximos meses, segundo as próprias projeções do Boletim Focus. Em termos de decisões de política monetária, muda bastante.
O Copom opera com um viés de cautela explícito desde o início do ano. Os membros do comitê já disseram, em atas e discursos, que uma inflação de serviços teimosa é suficiente para segurar a taxa por mais tempo do que o mercado gostaria. O IPCA de junho reforça essa leitura: não há razão estatística para cortar, e há um componente services que recomenda paciência.
Há também o lado do bolso. Para quem consome a cesta cheia, a inflação sentida costuma ser maior do que a medida. Famílias de renda mais baixa gastam proporção maior da renda com alimentos — exatamente o grupo que mais pressiona o índice. O agregado baixou; a inflação da feira, não. É uma diferença que a média esconde, mas o orçamento revela todo mês.
O próximo número a observar é a prévia do IPCA-15 de julho, que costuma antecipar a direção do índice cheio. Se alimentos e serviços voltarem a surpreender para cima, a leitura otimista desta semana perde força. Se recuarem, ganhamos evidência de que a queda do acumulado é, de fato, estrutural. Até lá, o conselho é o mesmo de sempre: ler os grupos, não só a manchete.